
Ofélia não era bonita, nunca fora. Compridona e mal-ajambrada, sem cintura, sem bunda, sem peito, uma tábua. A única coisa bonita que tinha era o sorriso. Que sorriso!
Nunca tinha tido um namorado na vida, apesar de estar chegando aos trinta anos. Ela desesperava.
Todo santo dia, de segunda a segunda, depois de arrumar a cozinha do almoço, ela ia sentar, tristinha, no alpendre cheio de antúrios e samambaias. Levava a cestinha de vime das agulhas e linhas nos joelhos, para costurar ou bordar.
Mas não costurava nem bordava. Ficava de olho na rua, sapeando o vai-e-vem dos muitos homens, que subiam ou desciam dos bondes e do ônibus, no ponto do Bar Central. Quem sabe...
Tanto olhou, tanto sapeou, que um dia exergou, no meio da multidãozinha de sempre, o seu homem. Aquele homem que os céus houveram por bem enviar à sua vida, para transformar a sua existenciazinha xinfrim num mar de rosas vermelhas e cheirosas... O seu namorado, seu marido, seu amante. O cavaleiro que a resgataria daquela gaiola de ouro, daquela torre de marfim, levando-a para um reino distante, onde seriam felizes para sempre. Era ele, Ofélia sabia!
Bem... Na verdade o sujeito nem era lá tão grande coisa, mas, dadas as circunstâncias, servia. Alto, magro, meio desengonçadinho, meio vesguinho do olho esquerdo. Chamava-se Hermógenes, e gaguejava um pouco, quando ficava nervoso. Mas isso ela soube depois.
O fato é que ele olhou para cima com o olho esquerdo(teria olhado mesmo?) e então piscou para ela com o olho direito (teria piscado mesmo?), o que fez Ofélia sorrir. Sorrindo, ela mostrou o que tinha de bonito: duas fileiras de dentes branquinhos e regulares, que mais pareciam um co-colar de pérolas, ou um re-rebanho de ove-ve-lhas gêmeas idênticas, entre as qua-quais nenhuma era esté-téril, como parodiou Hermógenes, um certo dia.
Pois é. Dali em diante, chovesse ou fizesse sol, o moço passava na rua no mínimo duas vezes ao dia, uma na ida e outra na volta do trabalho. Veio o namoro, veio o casamento e veio tudo o mais. Foram felizes para sempre, ali mesmo, na Consolação.
foto: "Open" - Jenny Lloyd





