Terça-feira, 3 de Junho de 2008

O SORRISO DE OFÉLIA






















Ofélia não era bonita, nunca fora.
Compridona e mal-ajambrada, sem cintura, sem bunda, sem peito, uma tábua. A única coisa bonita que tinha era o sorriso. Que sorriso!
Nunca tinha tido um namorado na vida, apesar de estar chegando aos trinta anos. Ela desesperava.
Todo santo dia, de segunda a segunda, depois de arrumar a cozinha do almoço, ela ia sentar, tristinha, no alpendre cheio de antúrios e samambaias. Levava a cestinha de vime das agulhas e linhas nos joelhos, para costurar ou bordar.
Mas não costurava nem bordava. Ficava de olho na rua, sapeando o vai-e-vem dos muitos homens, que subiam ou desciam dos bondes e do ônibus, no ponto do Bar Central. Quem sabe...
Tanto olhou, tanto sapeou, que um dia exergou, no meio da multidãozinha de sempre, o
seu homem. Aquele homem que os céus houveram por bem enviar à sua vida, para transformar a sua existenciazinha xinfrim num mar de rosas vermelhas e cheirosas... O seu namorado, seu marido, seu amante. O cavaleiro que a resgataria daquela gaiola de ouro, daquela torre de marfim, levando-a para um reino distante, onde seriam felizes para sempre. Era ele, Ofélia sabia!
Bem... Na verdade o sujeito nem era lá tão grande coisa, mas, dadas as circunstâncias, servia. Alto, magro, meio desengonçadinho, meio vesguinho do olho esquerdo. Chamava-se Hermógenes, e gaguejava um pouco, quando ficava nervoso. Mas isso ela soube depois.
O fato é que ele olhou para cima com o olho esquerdo(teria olhado mesmo?) e então piscou para ela com o olho direito (teria piscado mesmo?), o que fez Ofélia sorrir. Sorrindo, ela mostrou o que tinha de bonito: duas fileiras de dentes branquinhos e regulares, que mais pareciam um co-colar de pérolas, ou um re-rebanho de ove-ve-lhas gêmeas idênticas, entre as qua-quais nenhuma era esté-téril, como parodiou Hermógenes, um certo dia.
Pois é. Dali em diante, chovesse ou fizesse sol, o moço passava na rua no mínimo duas vezes ao dia, uma na ida e outra na volta do trabalho. Veio o namoro, veio o casamento e veio tudo o mais. Foram felizes para sempre, ali mesmo, na Consolação.

foto: "Open" - Jenny Lloyd

Sábado, 3 de Maio de 2008

A CHUVA


A chuva era um hiato na vida da gente. A vida normal era o antes e o depois dela. No durante, era o tédio.
Antes da chuva, tinha aquela correria para pegar a roupa enlouquecida no varal e fechar as janelas que o vento batia. Chamar as crianças para dentro, guardar o feijão espalhado no terreiro antes que molhasse, cobrir o espelho com pano e tirar o fio do rádio da tomada.

Os trovões cresciam ao longe, medonhos, e iam chegando cada vez mais e mais perto. Relâmpagos cortavam o céu cinzento, mostrando o avesso da copa das árvores. Os raios! Caía por fim a chuva braba, e os rosários surgiam, a ladainha subindo e descendo de tom conforme a trovoada. Nos cantos da casa queimava-se palha benta e ninguém permanecia inteiramente ateu durante a tempestade.
As crianças ficavam encolhidinhas dentro de casa, empoleiradas no fogão de lenha, observando as goteiras nas panelas e bacias espalhadas pela casa, pingando, pingando, pingando...
Lá fora, a ventania uivava e levantava as telhas velhas do galinheiro, espantando as galinhas do choco e arrastando a palha do paiol de embolada com algum balaio vazio.
A criação, incomodada, campeava uma beira de telhado e ficava ali entafuiada, olhando a tormenta com olhos desconfiados.
Quando os passarinhos enfim voltavam a cantar, vinha a surpresa gostosa do depois-da-chuva: o arco-íris no céu, começando lá adiante, onde o capinzal jazia tombado na beira do ribeirão. O mundo ficava feito novo. Aos poucos, a terra se repovoava e a gente corria a brincar de novo, na areinha branca da enxurrada.

foto: "Ventania" - André Adeodato

A GENTE SAI DO SERTÃO...


"A gente sai do sertão, mas o sertão não sai da gente"



O sertão, tudo que ele tem de tristonho, aviltante, constrangedor, neurotizante - fica grudado na sola da alma, para sempre, e não há prozac nem divã que arranque.
É a lembrança envergonhante daquele sapatinho de escola velho e apertado, ou daquela roupinha de segunda-mão remendada no cotovelo, herança do irmão mais velho. Ou então daquele parente rico que morava nos quintos-dos-infernos, mas que vinha de lá, todo ano, o filho da mãe, só para arruinar o nosso mixo Natal com a sua presença inoportuna. Com a descarada exibição daquela fartura toda, para nós simplesmente inatingível. Sapatos novos! Roupa boa! Brinquedos...
É a eterna adaptação, a invenção da reciclagem quando o mundo nem sonhava com essa palavra. O serzido, a marrafa, a prega, o remendinho humilhante.
É a comida requentada que perigava azedar na marmita.
"Tudo serve, tudo se aproveita, nada se joga fora". Nem as mágoas, nem a inveja, nem o despeito.

A gente sai do sertão, tudo bem: trabalha de dia, estuda à noite, dorme pouco, come mal. Economiza, guarda, poupa, investe. Sobe na vida.
A gente supera a dor daquela hora íntima, a vergonha da constatação da própria miséria. Como quando, ao
assumir um posto mais elevado na vida, a gente vê que não tem a roupa adequada, não tem um calçado decente, não tem as malas apropriadas. Compra tudo a prazo, calça bem a cara e vai.
Na verdade, o que a gente não tem é uma história apropriada, porque viveu uma vida de gambiarras, tentando burlar a seleção natural, e o sertão grudado na sola do sapato.


Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

FLAGRANTE



Recém-chegado do interior, o Zé ainda tinha aquela ausência de malícia, aquela candura, além do sotaquezinho carregado, cheio de erres. Falava sem a mínima pressa, o que bem caracteriza o nosso caipira. Demorava um tempão para falar um ai.
À falta de melhor, enquanto o mecânico consertava seu caminhãozinho, o Zé arranjou um bico: motorista do táxi da tia. Uma tia velha e rica, que tinha o táxi como rendinha extra, e o motorista como seu chofer particular. Ela saía pouco, e não tinha carta.
Ia indo tudo bem, até o dia em que o Zé pegou aqueles três caras, já meio fora de hora, numa corrida que "ia valer a pena". Eles iam até uma rua lá para os lados da zona leste, pegar um dinheiro com o ex-patrão, e voltariam até aquele mesmo ponto, na estação do metrô. Um corridão.
Chegando lá, o Zé estacionou o carro defronte à casa indicada, um muro bem alto com um baita portãozão de ferro. Dois dos passageiros desceram e o terceiro ficou ali, andando para lá e para cá na calçada, junto com o Zé, que desligou o carro e o acompanhou, por precaução. Vai que some...
Demorou, demorou, e nada dos dois aparecerem. O Zé já estava começando a ficar preocupado, quando, assim do nada, surgiu a viatura com a sirene ligada:

- Mão prá cabeça, os dois! Encosta aí no muro, anda!

O Zé, aterrorizado, enrolou, titubeou, gaguejou e não conseguiu se explicar. Pois como é que ele haveria de adivinhar que os dois passageiros iam entrar na casa para um ajuste de contas, obrigando o caseiro a telefonar para o patrão? E que o patrão - é claro - ia chamar a polícia?
Até explicar, o coitado do Zé foi em cana, em flagrante de roubo. Logo ele!

foto: "Prudente" - Rubian Calixto

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

O PAPAGAIO

















Papagaio é um bichinho esperto. O nosso era um gênio.
Trazido bem pequenininho do norte, por um caminhoneiro, o louro foi criado com miolo de pão molhado dado no bico e era como se fosse alguém da família.
E eu já digo era, porque o pobrezinho já não está mais entre nós: foi covardemente assassinado por um tal de Ico, um cachaceiro. Pois é.
De primeiro, o louro ficava na janela da cozinha, andando prá lá e prá cá num poleiro feito de um cabo de vassoura. Mal o dia clareava, ele despencava a falar, interesseiro, com a sua vozinha esganiçada:

- Dá café pro louro! Quer café, louro? Coitaaaaado do louro!

Imitava de tudo: cachorro, gato, cabrito, galinha, galo. Ele
alegrava o ambiente com a sua bulha, cantando sempre a mesma marchinha de carnaval:

- Se você fosse sincera, ô-ô-ô-ô, Aurora!

Mas, depois de um tempo, a gaiola mudou para dentro da venda, e o lourinho começou a circular, muito mansinho, por entre as prateleiras e até em cima do balcão, para alegria dos fregueses. Bichinho inteligente, ele reconhecia algumas pessoas, e remedava, com a sua vozinha de taquara rachada:

- Bom dia, Nerso! Dá uma pinga aí...


Meu avô enjeitou muito dinheiro nele. De jeito nenhum que ele vendia o louro!

Entretanto, o destino quis que o louro embirrasse com a cara do Ico, o pinguço mais chato que havia na cidade. Era só o Ico entrar na venda, que a avezinha se arrepiava inteira, e, acendendo os olhos, ia logo expulsando o paná:


- Té logo! Té logo!


Era um comportamento muito estranho, que o nosso papagaio era de paz. Talvez não gostasse do bêbado por motivos pessoais, vai saber...
O caso é que u
m dia, o pinguço se invocou e torceu o pescoço do lourinho, sem dó. Foi uma tristeza, e só não fizemos o mesmo com o Ico nem sei bem por quê.

foto: Danilo Chequito

O GRILO DE ABRIL


Quando os tiros ecoaram na praça, a multidão se espalhou feito água esparramada. Os cavalos dos milicos avançaram, pisoteando os lírios amarelos do jardim, e eu fechei a janela.
Por medida de segurança, cerrei a cortina, apaguei a luz e fui me sentar lá na cozinha, escolhendo feijão. Por força do hábito, liguei o rádio e a música calma combinou com a noitinha que ia chegando pela vidraça. Comecei a fazer o jantar.
Ainda se escutavam as sirenes, freadas, pneus cantando no asfalto, quando temperei o bife e arranjei a salada de alface.

Resolvi tomar um banho antes de jantar. A água quentinha levantava fumaça e eu cantarolava uma música velha qualquer. Lavei os cabelos, sequei com o secador, pintei as unhas dos pés com um esmalte vermelho-sangue. Os tiros ainda pipocavam, lá fora.
Vesti meu pijama verde-oliva e olhei para baixo através de uma fresta da persiana: umas poucas pessoas ainda fugiam, uns poucos cavalos ainda esmagavam lírios amarelos no jardim da praça.
Fiquei ali algum tempo, escutando os ecos da quizumba, até que entrou pela janela um silêncio muito estranho, uma ausência total de ruídos urbanos. Nenhuma buzina, nenhuma freada, nenhuma sirene, nada!
No escuro, contabilizei o esquisito da noite: só o tic-tac do despertador e o ronquinho espasmódico da geladeira continuavam normais, o resto era silêncio. Então eu escutei o grilo. Um grilo!
No escuro da noite, depois de um movimento armado que fez as pessoas correrem e se esparramar como água espalhada, depois dos cavalos reluzentes esmagarem quase todos os lírios amarelos do jardim da praça, eu escutava um grilo!

Um grilinho bem invocado e terrorista, que cantou e cantou o seu cantinho de anúncio de chuva até quando talvez o sono chegou para ele também, apagando sua voz, junto com todos os outros ruídos daquela noite de abril.


foto: "Persiana" - Canto de Sirena

MARIA MURCHA



Eu tenho medo da velhice. Das rugas, da impotência, das doenças peculiares à idade madura. Tenho muito medo de perder a memória e ficar como ficam aqueles que vêem chegar a última idade com os olhinhos assustados de criança em terreno estranho.
Mas, acima de tudo, eu tenho medo de ficar como ficou a Maria Murcha.
Maria Murcha é o apelido que a molecada colocou na pobrezinha da Rosária, a prostituta velha. Velhinha, ela anda feito cachorro sem dono, fuçando o lixo daqui e dali, à procura de quem lhe dê uns trocadinhos, ou um prato de comida. Ou uma dose de pinga.
Ela mora lá em cima, nas casinhas populares, no meio dos cachaceiros, da mulherada da zona e de outros degredados. Vive da caridade pública e privada, veste qualquer coisa, come se lhe dão. E bebe, coitadinha, bebe feito um gambá.
A família - diz que era gente da alta roda - já sumiu faz tempo. Os homens...esses então!
Agora, quando é noite de lua cheia, daquelas gostosas noites de lua cheia da nossa cidade, a Maria não volta para o gueto. Os arruaceiros que saem das farras costumam encontrá-la, sentadinha num banco de pedra da praça, talvez fumando e bebendo sozinha, talvez com um colega de copo. Cantando modinhas antigas, bebinha, bebinha:

- Hoje sou folha morta
Que a corrente transporta
Oh, Deus!
Como eu sou infeliz!

Eu tenho muito medo de acabar como acabou a pobre da Rosária. Sozinha no mundo e servindo de alvo para as brincadeiras de mau gosto da molecada do grupo escolar. Logo ela, de quem se diz que já foi bem de vida, que só andava de salto alto e vestidos de seda. Que pintava o cabelo de louro champanhe e que já tinha estado até na capital federal !
Ou não tinha, talvez fosse só o efeito da cachaça.

foto: "Slow Night" - Darius Nemanis